A Walt Disney Company passou por nove lideranças executivas em pouco mais de um século. Cada CEO imprimiu uma marca na empresa, e a trajetória de cada um revela lições que vão além do entretenimento. Este post reorganiza cronologicamente os bastidores do comando da Disney, inspirado por um ranking publicado pelo canal Nik Goodner (@nikgoodner), que classificou os líderes de 7 (pior) a 1 (melhor). Aqui a lente é outra: a sequência real dos fatos e o que cada transição ensina sobre legado, risco e governança. Ao final de cada seção, incluímos a nota que o ranking original atribuiu ao CEO e a razão principal.
Panorama: Pontos Altos e Pontos Baixos de Cada Gestão
| CEO | Mandato | Ponto Alto | Ponto Baixo |
|---|---|---|---|
| Walt Disney | 1923-1966 | Criou a Disneyland e o modelo de IP como experiência física | Centralização criativa extrema, empresa dependente de um único cérebro |
| Roy O. Disney | 1966-1971 | Completou o Walt Disney World e preservou o nome do irmão | Não formou sucessores com DNA Disney |
| Donn Tatum | 1971-1976 | Estabilizou a empresa após a morte dos dois fundadores | Nenhuma expansão criativa relevante no período |
| Card Walker | 1976-1983 | EPCOT Center, Tokyo Disneyland e Disney Channel | Filosofia “O que Walt faria?” travou inovação e estagnou a empresa |
| Ron Miller | 1983-1984 | Criou a Touchstone Pictures (visão de público adulto) | Não conseguiu executar rápido o suficiente para evitar raiders |
| Michael Eisner | 1984-2005 | Levou a empresa de US$ 1,8 bi para US$ 80 bi, Renascença da animação | Conflitos internos destrutivos, queda criativa nos últimos anos |
| Bob Iger | 2005-2020, 2022-2026 | Aquisições de Pixar, Marvel, Lucasfilm e Fox, lançamento do Disney+ | Falhou na primeira tentativa de sucessão (Chapek) |
| Bob Chapek | 2020-2022 | Manteve operação durante a pandemia, abertura do Shanghai Disney | Queda de 40% nas ações, crise com criativos e governo da Flórida |
| Josh D’Amaro | 2026-presente | Proximidade operacional, credibilidade interna nos parques | Ainda sem histórico no comando de estúdios e streaming |
Walt Disney (1923-1966): O Arquiteto do Universo
Walt Disney não ocupou formalmente o cargo de CEO nos moldes atuais, mas foi o criador, presidente e força gravitacional da empresa por mais de quatro décadas. Fundou o estúdio com o irmão Roy em 1923 e construiu um modelo de negócio inédito: propriedade intelectual transformada em experiência física. Disneyland abriu em 1955 e provou que era possível monetizar narrativa em escala industrial. Quando morreu em dezembro de 1966, deixou uma empresa faturando US$ 100 milhões anuais e um projeto ambicioso em andamento na Flórida.
Como observou Neal Gabler em Walt Disney: The Triumph of the American Imagination, “mesmo sem animar, escrever ou dirigir, Walt era o poder indisputável do estúdio”. Esse dado é essencial: o legado dele não é apenas criativo. É a demonstração de que um visionário pode construir um ecossistema inteiro de receita ao redor de personagens e histórias. IP como infraestrutura, antes de o termo existir.
Walt não foi incluído no ranking original porque é considerado fundador, não CEO no sentido corporativo moderno.
Roy O. Disney (1966-1971): O Andaime Estrutural
Roy Oliver Disney, cofundador e irmão de Walt, é frequentemente subestimado. Ele era o lado financeiro da equação, o responsável por manter a empresa solvente enquanto Walt criava. Quando Walt morreu, Roy saiu da aposentadoria com um único objetivo: completar o Walt Disney World. Inaugurou o Magic Kingdom em outubro de 1971 e insistiu em que o nome oficial fosse “Walt Disney World” para preservar o crédito do irmão. Morreu dois meses depois da inauguração.
Bob Thomas documenta em Building a Company: Roy O. Disney and the Creation of an Entertainment Empire como Roy administrou, por décadas, a tensão entre os instintos criativos de Walt e a realidade financeira do estúdio. A lição de Roy é direta: o papel do cofundador nem sempre é brilhar. Às vezes, é garantir que a visão do outro sobreviva.
Nota no ranking: 2º lugar. Roy foi classificado como o segundo melhor CEO da história da Disney. A razão: completou o Walt Disney World e protegeu a integridade da empresa em seu momento mais vulnerável.
Donn Tatum (1971-1976): O Zelador de Transição
Donn Tatum assumiu o cargo de CEO em um dos momentos mais vulneráveis da empresa. Walt e Roy haviam morrido em um intervalo de cinco anos, e a Disney não tinha mais nenhum Disney no comando. O trabalho de Tatum foi manter a operação estável, consolidar o Walt Disney World e evitar perda de identidade. Não houve grandes inovações, mas houve algo igualmente raro: continuidade sem ruptura. Manter as luzes acesas durante o luto institucional é uma competência que poucos reconhecem.
Nota no ranking: 5º lugar. O ranking reconhece que Tatum “manteve as luzes acesas” após as mortes de Walt e Roy. Não inovou, mas evitou o colapso em um momento onde qualquer erro poderia ter custado a empresa inteira.
Card Walker (1976-1983): A Doutrina “O Que Walt Faria?”
Card Walker trouxe um modelo de decisão que era ao mesmo tempo reverente e limitante: usar Walt como bússola para cada escolha estratégica. Sob sua liderança, a Disney lançou o EPCOT Center em 1982 (uma versão adaptada da cidade futurista que Walt havia sonhado), licenciou a Tokyo Disneyland em 1983 (primeiro parque internacional) e criou o Disney Channel. O problema da filosofia “O que Walt faria?” é que ela funciona bem para preservação, mas trava inovação. Walker protegeu a marca, porém deixou a empresa criativa e financeiramente estagnada no início dos anos 1980, abrindo caminho para uma crise de identidade.
Nota no ranking: 4º lugar. Walker ficou à frente de Tatum no ranking por ter entregue três projetos de grande escala (EPCOT, Tokyo Disneyland, Disney Channel), mas foi penalizado pela mentalidade conservadora que sufocou a renovação criativa.
Ron Miller (1983-1984): O CEO de Um Ano
Ron Miller era casado com Diane Disney, filha de Walt, e chegou ao cargo por proximidade familiar, não por mérito executivo comprovado. Seu mandato durou cerca de um ano e foi marcado pela pressão de raiders corporativos que tentaram adquirir a Disney a preço de banana. Miller tentou criar a Touchstone Pictures para produzir filmes voltados ao público adulto, uma ideia que fazia sentido estratégico. Mas a execução veio tarde demais. O conselho o substituiu para evitar uma aquisição hostil. A lição de Miller é sobre timing: uma boa ideia implementada no momento errado pode custar a cadeira.
Nota no ranking: 7º lugar (último). Miller ficou na lanterna do ranking. Quase perdeu a empresa para raiders corporativos e não teve tempo nem capital político para executar suas ideias.
Michael Eisner (1984-2005): O Rei do Estilo e da Renascença
Michael Eisner é, por qualquer métrica financeira, o CEO mais transformador da história da Disney. Quando assumiu em 1984, a empresa valia US$ 1,8 bilhão. Quando saiu em 2005, valia US$ 80 bilhões. Sob Eisner, a Disney viveu sua Renascença com A Pequena Sereia (1989), A Bela e a Fera (1991), Aladdin (1992) e O Rei Leão (1994). Expandiu a empresa para televisão (comprou a ABC e a ESPN), cruzeiros e home video. Eisner era obcecado por arquitetura nos parques, contratando nomes como Michael Graves para projetar hotéis icônicos.
Em seu livro Work in Progress, Eisner descreve a filosofia que guiava suas decisões: “arriscar o fracasso para sobreviver ao sucesso”. E de fato, os riscos foram enormes. James B. Stewart documenta em DisneyWar como a relação de Eisner com Jeffrey Katzenberg implodiu de forma tão destrutiva que a Disney acabou pagando US$ 280 milhões em acordo judicial, quando poderia ter fechado por US$ 90 milhões. Nos últimos anos, conflitos com Roy E. Disney (sobrinho de Walt) e uma queda de qualidade criativa mancharam o final do mandato. Mesmo assim, a escala do que ele construiu em 21 anos é difícil de contestar. O legado Eisner prova que obsessão estética pode ser vantagem competitiva mensurável.
Nota no ranking: 1º lugar. Eisner ficou no topo por ter multiplicado o valor da empresa em mais de 40 vezes e conduzido a Renascença da animação. O ranking o chama de “Rei do Estilo” pela obsessão com design, arquitetura e qualidade visual.
Bob Iger (2005-2020, 2022-2026): O Arquiteto da Blindagem Competitiva
Se Eisner foi o Rei do Estilo, Bob Iger foi quem tornou a Disney praticamente impossível de competir. No primeiro mandato (2005-2020), executou quatro aquisições que redefiniram a indústria: Pixar em 2006 (US$ 7,4 bilhões), Marvel em 2009 (US$ 4 bilhões), Lucasfilm em 2012 (US$ 4 bilhões) e 21st Century Fox em 2019 (US$ 71,3 bilhões). O valor de mercado saltou de US$ 56 bilhões para US$ 231 bilhões. Iger também lançou o Disney+ e protegeu a empresa contra o investidor ativista Nelson Peltz.
Em The Ride of a Lifetime, Iger resume a lógica que guiou suas aquisições: “Você não pode viver dos sucessos de ontem. Inove ou morra.” Cada compra foi calculada para blindar a Disney contra a concorrência, acumulando propriedade intelectual de tal peso que o próprio Warren Buffett classificaria a estratégia como exemplo de “moat” (o fosso econômico que impede concorrentes de se aproximarem). Quando você controla Spider-Man, Star Wars, Elsa e Os Simpsons ao mesmo tempo, isso não é metáfora. É contabilidade. Quando Bob Chapek falhou como sucessor, Iger voltou em novembro de 2022 para estabilizar a operação. Seu segundo mandato encerrou em março de 2026.
Nota no ranking: 3º lugar. Iger ficou atrás de Eisner e Roy no ranking original por conta da crise de sucessão com Chapek, que comprometeu anos de planejamento. Mas o ranking reconhece que o fosso competitivo que ele construiu via aquisições é provavelmente irreplicável.
Bob Chapek (2020-2022): As Rodinhas de Treinamento
Bob Chapek assumiu em fevereiro de 2020, semanas antes da pandemia fechar os parques do mundo inteiro. Havia méritos no currículo: liderou a abertura do Shanghai Disney Resort (US$ 5,5 bilhões) e supervisionou Star Wars: Galaxy’s Edge. Como CEO, porém, enfrentou uma tempestade perfeita. Aumentos de preços nos parques, a polêmica “Don’t Say Gay” na Flórida e a reestruturação que alienou executivos criativos resultaram em queda de 40% no preço das ações. Em novembro de 2022, o conselho o demitiu.
A narrativa de Chapek ilustra um risco clássico: quando o antecessor permanece perto demais, a autonomia do novo líder fica comprometida antes mesmo de começar. Como Ed Catmull descreveu em Creativity, Inc. sobre dinâmicas de poder em empresas criativas, “a honestidade institucional depende de uma estrutura que a proteja”. Chapek nunca teve essa estrutura.
Nota no ranking: 6º lugar. O ranking o chamou de “rodinhas de treinamento”, apontando que Iger “respirava no seu pescoço” e que o sistema de reservas dos parques sob Chapek priorizou extração de receita em vez de experiência do visitante.
Josh D’Amaro (2026-presente): O Capítulo em Aberto
Josh D’Amaro assumiu oficialmente em 18 de março de 2026. Aos 55 anos, com quase três décadas na empresa, vem da divisão Disney Experiences (parques, cruzeiros, resorts e produtos de consumo), o motor de receita mais tangível da companhia. Iger permanecerá como conselheiro até dezembro de 2026. O desafio de D’Amaro é provar que consegue governar estúdios e streaming com a mesma fluência que governou parques. A escolha do conselho sinaliza uma aposta em estabilidade operacional e proximidade com o produto.
D’Amaro não foi incluído no ranking original, publicado antes de sua nomeação. Não há histórico suficiente para avaliá-lo.
Considerações Finais
Nove CEOs em pouco mais de um século, e nenhuma transição foi indolor. O dado mais revelador dessa cronologia não está nos nomes ou nos números de receita. Está no padrão que se repete: toda vez que a Disney tentou resolver um problema de liderança com velocidade em vez de clareza, o resultado foi erosão de valor. Ron Miller caiu porque a reação veio tarde demais. Chapek caiu porque a autonomia nunca foi real. Nos dois casos, o conselho acabou pagando o custo político de uma sucessão improvisada.
Os CEOs que mais entregaram valor de longo prazo compartilham uma característica que não aparece em nenhum balanço: a capacidade de proteger o acervo de propriedade intelectual da empresa enquanto encontram caminhos novos para monetizá-lo. Roy garantiu que o projeto da Flórida existisse. Eisner transformou animação em máquina de receita e expandiu a empresa para televisão, cruzeiros e publicação. Iger comprou Pixar, Marvel, Lucasfilm e Fox e tornou a Disney tão difícil de competir que qualquer novo entrante no setor de entretenimento precisa aceitar que está jogando em desvantagem estrutural permanente.
A outra lição que essa linha do tempo entrega é sobre o papel do CEO que não inova. Tatum e Walker não aparecem em rankings de “melhores líderes”, mas cumpriram uma função que a cultura corporativa costuma desprezar: manutenção. Manter uma empresa coesa enquanto o luto institucional ainda está fresco, enquanto o mercado testa sua vulnerabilidade, é um tipo de competência que não gera manchete, mas evita o colapso. Sem Tatum e Walker, Eisner não teria encontrado uma empresa para transformar.
O que resta observar agora é se Josh D’Amaro consegue repetir o que Iger fez em 2005: herdar uma empresa funcional e devolvê-la maior. A diferença é que Iger herdou de Eisner, que havia construído escala. D’Amaro herda de Iger, que construiu um portfólio de IP praticamente impossível de replicar. O desafio não é mais adquirir. É governar a complexidade do que já foi comprado, manter os estúdios criativamente relevantes, tornar o streaming rentável e não deixar que os parques virem apenas uma operação de extração de margem. Se ele acertar, a Disney entra na próxima década como a empresa de entretenimento mais completa do planeta. Se errar, a cronologia dos CEOs ganha mais um capítulo sobre o custo de subestimar a transição.
Leituras Complementares
Para quem quiser ir mais fundo na história da liderança Disney, estes são os livros citados neste post e outros que complementam a análise:
- Walt Disney: O Triunfo da Imaginação Americana, de Neal Gabler. A biografia definitiva de Walt, escrita com acesso irrestrito aos arquivos da família. Ver na Amazon (PT-BR) | Ver na Amazon (EN)
- Building a Company: Roy O. Disney and the Creation of an Entertainment Empire, de Bob Thomas. A história do cofundador que manteve a empresa de pé enquanto Walt criava. Ver na Amazon (EN)
- DisneyWar, de James B. Stewart. O relato mais detalhado da era Eisner, incluindo os conflitos com Katzenberg e Roy E. Disney que quase destruíram a empresa por dentro. Ver na Amazon (EN)
- Work in Progress, de Michael Eisner. A visão do próprio Eisner sobre como arriscou, errou e transformou a Disney em uma potência de US$ 80 bilhões. Ver na Amazon (EN)
- The Ride of a Lifetime, de Bob Iger. As memórias do CEO que blindou a Disney com as aquisições de Pixar, Marvel, Lucasfilm e Fox. Ver na Amazon (EN)
- Creativity, Inc., de Ed Catmull. A história da Pixar por dentro, incluindo como a cultura criativa foi (parcialmente) transplantada para a Disney após a aquisição. Ver na Amazon (EN)
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Post inspirado no Reel de Nik Goodner (@nikgoodner), criador de conteúdo sobre criatividade, storytelling e marketing com mais de 200 mil seguidores. A ordem original do ranking foi reorganizada cronologicamente para evidenciar a linha evolutiva da empresa.